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Mostrando postagens de Julho, 2016

O ESPELHO DOS MILAGRES - IVAN PESSOA

 O ESPELHO DOS MILAGRES

Como posso ter uma identidade sem um espelho?” 
(William Golding, Pincher Martin)

*** Por Ivan Pessoa *** §1 O que turva imediatamente em momentos de crise – como se os olhos estivessem prenhes e cegos – é a representação: aqui compreendida como espelho. Em meio à crise, aceitar sem resmungos aquilo que os olhos veem perante o espelho, é a condição primeira para o autoconhecimento, de sorte que refleti-lo implica autoaceitação e contínuo aprimoramento. Neste instante, aquele que aceita a si mesmo face-a-face, capta humildemente uma certeza: ‘-Eu sou isto’. Do mesmo modo, ignorar ou pretender adulterá-lo é empreender distância daquilo que os olhos veem, culpando ou onerando as deficiências da pupila, da retina e do globo ocular pela recepção da imagem refletida. Por não suportar a si mesmo, o que surge perante os olhos são alentadas justificativas: ‘– Não consigo ver a mim mesmo, portanto, tudo ao redor me ofusca, e tem culpa. ‘ Justificar o que os olhos veem como uma…

AS AFINIDADES ELETIVAS DE UM SONHO - IVAN PESSOA

“(…). o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.”
(João Cabral de Melo Neto) As afinidades eletivas de um sonho 12 de fevereiro de 2016


Por Ivan Pessoa *** §1 Da certeza de Hölderlin, eu compactuo sem titubeios: “O homem é um deus quando sonha e um mendigo quando pensa.” Sem mais delongas, isto se justifica pela loucura do poeta, que viveria (durante quarenta anos) municiado por um carpinteiro que o abrigaria – em seu longo e silencioso degredo – nas dependências de uma torre. Não é de admirar que, no auge de sua loucura – nos cômodos daquela torre às margens do Rio Neckar – Hölderlin recepcionasse suas visitas com as seguintes palavras: ‘Entre, Vossa Senhoria’, ou, ‘Sente-se, Sua Alteza.’ Em ambos os contextos, o poeta decisivamente transparece a certeza de que, em tal estado crepuscular, nos elevamos à uma nobiliárquica condição, à maneira de uma divindade. De certa feita, temos, proporcionalmente, a nobreza de um deus que sonha, mas que despertos, …