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PALAVRAS DO GRANDE MESTRE ARIANO SUASSUNA : RELEMBRE A ENTREVISTA DO ADMIRADO ESCRITOR E DRAMATURGO BRASILEIRO

Ariano Suassuna: relembre entrevista em que autor fala de vida, morte e Deus

Escritor e dramaturgo paraibano declarou sua admiração pelo ser humano em conversa com reportagem do Correio Braziliense em março; recorde as posições otimistas do artista


Ariano Suassuna foi homenageado na Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, no último mês de março. À época, o autor paraibano conversou com a reportagem do Correio Braziliense sobre militância artística, literatura de cordel e de seus diálogos com Deus. "Vergonhosamente, acho que tem mais pedido que agradecimento", admitiu o artista em entrevista à repórter Vanessa Aquino.

Suassuna, que morreu em Recife nesta quarta-feira, 23, vítima de derrame acidente vascular cerebral, chegou a falar na entrevista sobre a formação de seu caráter através das perdas que sofreu.  "Essa personalidade que Deus me deu que me faz interessar muito pelo ser humano", comentou. Mantendo a reputação de otimista, Ariano conclui sua conversa com a jornalista enfatizando seu apego à contemplação da vida. "Acho a vida um espetáculo maravilhoso, tem momentos muito duros, mas a convivência com o ser humano é muito enriquecedora", declarou o imortal escritor.

A saúde

Foram dois sustos. No espaço de uma semana, eu tive um infarto e um AVC. Mas escapei bonito. Não acreditava em praga, agora estou acreditando. Praga de médico, sobretudo. Uns cinco dias antes, eu fui participar de um encontro de médicos em Ribeirão Preto (SP), era um congresso de cardiologia e o foco era hipertensão. Dei aula, mas pediram para eu participar de uma mesa redonda. Não sabia o que estava fazendo lá. Não sou médico e não tinha problema de pressão. Estou com 86 anos e minha pressão é 12 por 8. Disse: “Eu nunca vou ter um problema de coração. O meu problema pode ser câncer. Jamais terei nada no coração”. Voltei para casa e, em cinco dias, tive um infarto. Então, só pode ter sido praga (risos). Eu parei a rotina de trabalho, evidentemente, mas estou retomando agora.

O livro

O processo de criação é meio estranho. Por exemplo, vou ter que colocar o episódio do infarto. O texto já está pronto. Estou fazendo mudanças e colocando ilustrações que são todas feitas à mão. O livro também é escrito à mão. Eu só tenho prazer de escrever à mão. Sobre o livro, Quaderna vai voltar. Eu criei um personagem que é o protagonista do romance e Quaderna é o antagonista. Pretendo usar pessoas reais também. Quanto ao uso de figuras reais no meu livro, como minha literatura é muito fantástica, isso contribui para prender um pouco o universo do livro à realidade e dar uma certa credibilidade (risos). O livro foi feito em forma de castelo, que é um gênero literário criado pelos cantadores e folhetistas do Nordeste. O que eles chamam também de obra, marco ou fortaleza. Pois o meu romance pretende ser um castelo desses. Ninguém vai derrubar não. São sete volumes. Mas levo 30 anos para terminar o primeiro (risos) e tem que ser assim, não dá para se limitar. Estou aprontando e Deus queira que eu não bula mais.

 Samico

Olha, homenagem tem várias a Samico. Inclusive, em um volume posterior, tem um personagem chamado Gilvano Silmarco. Éramos amigos fraternos e, além da grande amizade que nos unia, tem a admiração política, artística. Para mim, foi um dos maiores gravadores de todos os tempos. Eu reclamo sempre quando vejo o uso leviano de certas palavras. Outro dia, reclamei muito porque saiu no jornal que um guitarrista que tem por aí era genial. Discordo. Sou um escritor brasileiro e escrevo em português e a língua me dá trabalho, então, se eu uso um adjetivo com Chimbinha, o que vou dizer de Beethoven, ou de Vivaldi, ou de Mozart? Reclamei. Mas quando morreu Samico, eu li no jornal, que dentro da minha tristeza me deixou alegre: “Mundo perde a genialidade de Samico”. Aí, eu disse: “Agora sim, a palavra ‘genial’ está bem empregada”. E outra coisa: foi o mundo que perdeu. E, realmente, não há artista igual a ele no mundo todinho. Agora, ele nasceu em um país que não tem essa força de afirmação dos seus artistas.


Cultura popular

Da gravura, vou citar dois: J. Borges e José Costa Leite. Dentro da música popular, o mestre Salustiano, que não está mais vivo, e o alagoano Nelson da Rabeca, um grande músico popular. Da literatura, vivo não tem mais nenhum. A literatura de cordel considero um gênero importante da cultura popular. Morreu a pouco tempo, infelizmente, um que se chamava Francisco Sales Areda. Achava ele um poeta extraordinário, autor de um folheto chamado O homem da vaca e o poder da fortuna, que me levou a escrever A farsa da boa preguiça. Sem se falar no maior de todos, que houve até agora, o paraibano Leandro Gomes de Barros. Genial, extraordinário.

Com Deus

Converso muito com Deus, todos os dias. E entra muito assunto, muitos pedidos. Vergonhosamente, acho que tem mais pedido que agradecimento. Quando acho que estou incomodando muito, recorro a medianeira de todas as graças, que me acompanha a todo momento e para todo o lugar que vou, levo (segura a medalha de Nossa Senhora).

Militância artística

Eu procuro separar, porque não gosto da chamada arte engajada. Não gosto de colocar meu trabalho a serviço das minhas ideias. Acho que as ideias de um escritor podem e até devem aparecer no que ele escreve, mas ele não deve colocar a sua obra a serviço dessas ideias. Gosto muito quando aparecem as ideias no romance, mas ele não pode colocar o romance a serviço. Procuro separar. A minha militância em defesa da cultura brasileira acho que é a própria obra que deve sustentar. Gostaria de fazer do meu romance, antes de tudo, uma obra literária. Os mestres tinham essa tendência. Tenho vários mestres, inclusive na literatura brasileira, dos quais destacaria Euclides da Cunha e Lima Barreto. Gostaria muito que meu romance fosse uma continuação de Os sertões e de O triste fim de Policarpo Quaresma, que acho uma maravilha.

Televisão

Meus filhos dizem que eu não assisto a televisão, não. Que eu arengo, brigo com a televisão. Porque normalmente só existe coisa ruim, exatamente pela quantidade. Mas outro dia liguei a televisão, veja que beleza, que eu jamais teria oportunidade de ver, porque não saio do Brasil. Os músicos eram austríacos, a orquestra sinfônica de Viena, o regente era judeu e o pianista era um chinês endiabrado, tocando música ocidental, inclusive. Uma maravilha. Aí, a televisão me ajudou. Eu ia morrer sem ter visto.

Processo criativo

Prefiro escrever de manhã. De noite, não gosto porque perco o sono, minha cabeça continua trabalhando pensando nos problemas do romance e perco o sono, coisa que tenho horror. Mesmo quando viajo fico pensando sobre o romance. Ele não me abandona nunca, tomo notas porque senão posso esquecer. Para escrever, preciso do silêncio. Mas não tem mistério nenhum, não. (Honoré de) Balzac disse que só escrevia vestido de fraque. Eu me visto civilmente. Mas ele era uma figura engraçadíssima. No meu romance, o personagem diz para Quaderna que a humildade fica muito bem no santo, mas o escritor precisa ser ambicioso.

Traje “clássico”

Isso partiu de uma brincadeira. Eu recebi uma comenda portuguesa, A Ordem do Infante do Henrique, que me foi dada pelo ex-presidente Mário Soares e, quando a comenda me foi entregue no Recife, eu tinha lido o artigo de Gandhi e ele dizia que o indiano pertencente às classes poderosas, mas que amasse o seu país e o seu povo, não devia nunca vestir roupa feita pelos ingleses, pois seria cúmplice dos invasores e estaria tirando das mulheres pobres da Índia um dos poucos mercados de trabalho que elas tinham, que era a costura. Desde esse momento, decidi que não usaria mais paletó e gravata e que só vestiria roupa feita por uma costureira popular. Zélia, minha mulher, me apresentou a uma costureira extraordinária chamada Edite Minervina de Lima. Queria um tipo de roupa que fosse a média de trabalho de um brasileiro comum. Passei a usar mescla azul, caqui e branco. Aí eu fui eleito para a Academia Pernambucana de Letras, não queria chocar todo mundo e chamei Edite e disse: “Você faça uma roupa daquele jeito mesmo, mas preto com camisa branca. Ela fez e eu fui e não choquei ninguém e deu para tomar posse” (risos). E foi quando recebi a comenda. Quando chegou o convite, estava escrito assim: “Traje esporte fino”. Foi quando me lembrei que meu time é o Sport e resolvi colocar a roupa preta da Academia Pernambucana, preta, e uma camisa vermelha. Desse modo, fica a finura e o esporte. No caso: Sport Fino.

Perdas da vida

As perdas, comigo, começaram muito mal. Aos 3 anos de idade eu tive meu pai assassinado e isso me marcou pelo resto da vida. E outras perdas familiares, eu sempre fui muito ligado à família. Éramos nove irmãos e hoje somos quatro, ou seja, eu perdi cinco irmãos e de homem só resto eu. Como presentes, também ganhei a família. Tive uma família maravilhosa, inclusive, meu pai exerceu uma grande influência, apesar de ter convivido tão pouco. Primeiro, porque ele era um grande leitor e herdei dele uma biblioteca que não era comum no Sertão da Paraíba, se ainda hoje não é comum, imagina nos anos 1930. Herdei uma biblioteca extraordinária. Depois, essa personalidade que Deus me deu que me faz interessar muito pelo ser humano. O meu primeiro impulso, quando não conheço a pessoa, é gostar da pessoa. Acho a vida um espetáculo maravilhoso, tem momentos muito duros, mas a convivência com o ser humano é muito enriquecedora, muito boa. E, depois, qualquer que seja a dimensão dele, o talento que Deus me deu para transformar as coisas em história, seja no teatro ou na literatura.

Ariano Suassuna sobre último romance: ''escrevo à mão e eu mesmo ilustro''

Rotina de trabalho no livro de sete volumes voltava a ocupar o escritor e dramaturgo, que sofrera um infarto em 2013

Seis meses atrás, em janeiro de 2014, quando ainda recuperava-se de um infarto do miocárdio e de um aneurisma sofrido no ano anterior, o escritor e dramaturgo Ariano Suassuna falou com a imprensa. Na tarde do dia 23 daquele mês, em sua casa, no bairro do Poço da Panela, no Recife, o autor recebeu repórteres para uma conversa sobre a homenagem a ser recebida no próximo desfile do Galo da Madrugada, em 1º de março, mas Ariano também comentou o ritmo de trabalho para finalizar 'O jumento sedutor', romance que escrevia há 33 anos.

"Sobre o romance, não tenho muita liberdade para falar, não. Jornalista gosta de fazer pergunta, e o meu natural é responder, mas a minha editora ficou preocupada porque fui espalhando coisas, e cada jornal botou um pedacinho. Ela disse: 'daqui a pouco quando sair o romance já perdeu a novidade toda'.

Mas eu posso lhe dizer o que tenho dito: sempre fui meio preocupado, porque escrevo três gêneros literários principais, poesia, teatro e romance. Sou conhecido como dramaturgo (acho que mais por causa do 'Auto da Compadecida' na televisão), menos como romancista, e como poeta sou inteiramente desconhecido. Tem gente que nem sabe que escrevo poesia.

Então nesse livro estou tentando colocar meu teatro, meu romance e minha poesia. Agora, é um livro trabalhoso, porque escrevo à mão e eu mesmo ilustro. Todas as páginas são ilustradas. Hoje mesmo eu passei a manhã trabalhando nele.“

Ariano Suassuna deixa legado de dramaturgo, romancista e poeta

Fundador do Movimento Armorial e indicado pelo Senado à disputa pelo Nobel, autor paraibano foi responsável por correntes literárias e declarações de veia crítica.

"Eu sou escritor. O escritor convencido, além de antipático, é um indecente. Acho que só se pode avaliar o valor de um escritor muito tempo depois da morte dele", disse Ariano Suassuna em entrevista ao Correio Braziliense em 2013. Morto aos 87 anos nesta quarta-feira, 23, vítima de acidente vascular cerebral, o autor paraibano deixa legado digno de um dos mestres de sua época.

Ocupante da cadeira 32 na Academia Brasileira de Letras, o artista tem talento reconhecido pelos colegas tanto na literatura — com obras como 'O romance d'a Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-volta' (1971) — quanto na dramaturgia — 'Auto da Compadecida' (1955) é apontado como sua obra-prima. Teve títulos traduzidos em pelo menos sete idiomas e, em 2012, foi indicado por uma comissão do Senado Federal como representante brasileiro na disputa pelo Prêmio Nobel de Literatura.

Nascido em Nossa Senhora das Neves, cidade que se tornaria João Pessoa, Ariano viveu no sertão da Paraíba antes de mudar-se com a família para o Rio de Janeiro, ainda na infância, e de lá retornou ao estado natal após o assassinato do pai, motivado por questões políticas. Passou a juventude no Recife, em Pernambuco, onde fundou o Teatro do Estudante e escreveu sua primeira peça, 'Uma mulher vestida de sol' (1947).

Formado em direito na capital pernambucana, dedicou-se à advocacia ao mesmo tempo em que desenvolvia seus trabalhos como dramaturgo, com obra extensa em curto período. 'Auto da compadecida' foi escrito neste período em que Ariano se dividia entre as duas carreiras. Lançada em 1955, a peça tornou-se sua obra mais conhecida e alçou-o à fama entre os entusiastas do teatro no país à época.

Na década seguinte, tornou-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, onde atuou até aposentar-se, em 1994.  Defensor da valorização de elementos regionais na cultura, foi um dos fundadores do Movimento Armorial, que pregava o desenvolvimento de obras eruditas com repertório ligado às características típicas do Nordeste.

O primeiro romance de Suassuna surgiu ainda em 1956, quando 'A história de amor de Fernando e Isaura' foi lançado na esteira da repercussão de 'Auto da Compadecida'. Em prosa, o autor ainda criou 'Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta' (1971) e 'História d’O rei degolado nas caatingas do Sertão/Ao sol da Onça Caetana' (1976). Em poesia, lançou quatro títulos entre as décadas de 1950 e 1980, além de uma antologia publicada em 1999.

Últimos dias 

Um novo livro ocupava a rotina de Ariano Suassuna. Ao Correio, o artista antecipou que reuniria "teatro, poesia e romance" na obra. "Sou mais conhecido como dramaturgo, por causa do 'Auto da Compadecida', menos conhecido como romancista e menos ainda como poeta. Mas, dou muita importância à poesia que faço. Ela é a fonte de tudo que escrevo", explicou o escritor, no ano passado. Ariano ainda anunciou o título da criação: 'O jumento sedutor'.
  
Na última sexta-feira, 18, o escritor concedeu uma aula-espetáculo no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), no Agreste de Pernambuco. Na manhã do sábado, 19, ainda tirou fotos com fãs que participavam do evento. Segundo Samarone Lima, assessor de Ariano, ele estava ótimo e muito animado. "Ele estava normal, estava bem", contou.

Em agosto de 2013, Ariano Suassuna sofreu um infarto agudo do miocárdio e foi internado no Hospital Português. Segundo os médicos, ele teve um comprometimento cardíaco considerado de pequenas proporções. Dois dias após receber alta médica, deu entrada novamente na unidade. Ele teria sido encontrado desacordado no chão de casa por familiares e passou mais quatro dias na UTI.

Fonte:http://divirta-se.uai.com.br/app/noticia/arte-e-livros/2014/07/23/noticia_arte_e_livros,157548/

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