EM 'AS PERFEIÇÕES', AUTOR ITALIANO RETRATA A OBSESSÃO DOS MILLENNIAIS POR 'AUTENTICIDADE' E O VAZIO EXISTENCIAL NA ERA DIGITAL
Em 'As perfeições', autor italiano retrata a obsessão dos millennials por 'autenticidade' e o vazio existencial na era digital
Finalista da Booker Prize, Vincenzo Latronico acompanha casal de jovens nômades que vivem a ilusão da vida instagramável
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08/06/2025 04h30 Atualizado há 3 semanas
Quem vive ou já viveu em uma metrópole certamente está familiarizado com figuras como Anna e Tom, os protagonistas de "As perfeições", quarto romance do italiano Vincenzo Latronico. Recém-lançado no Brasil pela Todavia, o livro acompanha um jovem casal de nômades italianos que se mudaram para Berlim em busca de um idílio hipster.
Eles são criativos, bons vivants, desprendidos. Colecionam experiências "autênticas" e só transitam por ambientes que reflitam seu estilo de vida cosmopolita, fotografável e compartilhável. Fora dos feeds perfeitos, dos cafés e dos espaços de co-working esteticamente impecáveis, porém, são assombrados pelo vazio existencial de uma rotina moldada pela aparência.
Finalista do Booker Prize 2025, o romance foi aclamado por seu retrato desencantado dos millennials, nascidos entre 1981 e 1996. O seu autor chegou a ser anunciado como atração da Bienal do Livro do Rio, mas acabou cancelando sua vinda.
— O que me interessava muito ao contar essa história era tentar capturar a forma como o tempo funciona quando você vive muito online — diz Latronico, em entrevista por videoconferência. - Quando se rola uma foto depois da outra, você tem a impressão de que não há uma história, de que as imagens não constroem uma narrativa. Você está sempre no presente, preso naquele instante.
Latronico descreve o presente estetizado dos seus personagens como uma sucessão de naturezas-mortas, onde nada acontece de verdade. A narração é concreta e, ao mesmo tempo, fugidia. Fora da bolha, no entanto, o mundo não para. Tom e Anna estão envelhecendo. A cidade está mais cara. A crise migratória se aproxima, cada vez mais difícil de ignorar.
— É nesse descompasso que mora o centro do conflito — diz Latronico. — Mas também é assim quando você tem vinte e poucos anos e sente que sempre haverá mais tempo. Que tudo é meio aberto, indefinido, suspenso.
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Nascido em 1984, Latronico cresceu com a internet e a globalização. Como outros millennials europeus, foi convencido de que poderia misturar trabalho e prazer e fugir das amarras dos empregos tradicionais. Como Anna e Tom, o jovem escritor seguiu ele próprio o clássico mantra millennial "'faça o que você ama e você nunca terá que trabalhar um dia na vida".
Nos seus vinte e poucos anos, Latronico também morou por um tempo em Berlim, cenário perfeito para a história do seu livro. Após a unificação, a cidade se tornou muito acessível para artistas e profissionais "criativos" de todos os cantos da Europa.
— Era o único lugar onde você podia desenvolver uma carreira artística mesmo que seus pais não fossem ricos —recorda. — Você não precisava de um emprego fixo. Bastava fazer uns bicos, trabalhar em bar, ajudar amigos a montar exposições. No meu caso, fiz algumas traduções, revisões… e com isso você podia viver dignamente e dedicar a maior parte do tempo à arte, à escrita e às drogas.
Tom e Anna, por sua vez, fazem parte de uma segunda geração. Não são artistas pobres, mas webdesigners freelancers que chegaram quando a nova fama de Berlim já estava consolidada. Aos poucos, eles presenciam o processo de gentrificação da capital alemã. Incomodados com as transformações que eles próprios ajudaram a provocar, partem em busca de ambientes mais "autênticos" - e, claro, mais baratos.
Na fantasia do casal, isso significaria espaços urbanos menos estéreis, sem turistas, franquias e vitrines padronizadas. Na prática, porém, essa busca desemboca num simulacro de singularidade, em sua versão instagramável e calculada.
É nesse ponto que "As perfeições" se aproxima de "As coisas", do francês Georges Perec, no qual Latronico se inspira. Publicado nos anos 1960, o romance mostra um casal que busca uma ilusória liberdade através do consumismo. Já no livro do autor italiano, o alvo móvel não são objetos, mas um estilo de vida que soe espontâneo, original e não-mediado pelo mercado.
— Faz tempo que me pergunto por que nossa geração é tão obcecada por autenticidade — diz Latronico. — E acho que isso tem muito a ver com uma geração que nasceu num mundo analógico e viu a internet chegar quando era adolescente. É uma geração que domina perfeitamente a tecnologia, mas existe, lá no fundo, uma sensação de que esse não é o jeito "natural" das coisas. De que não é assim que a vida deveria ser. Eu deveria conhecer alguém por acaso, no trem, e não no Tinder, sabe? Acho que esse é um dos fundamentos desse mito da autenticidade que a gente persegue hoje.
Exceção vira regra
A ironia, segundo Latronico, é que a busca por autenticidade acabou se transformando em uma estética padronizada. Aquilo que deveria nos tornar únicos se manifesta exatamente do mesmo jeito, em qualquer lugar do mundo.
— Se você pensar nos anos 90, quando começamos a falar sobre globalização, isso significava que um escritório corporativo em algum lugar dos EUA decidiria que todo McDonald’s seria igual no mundo todo — diz ele. — Mas agora tem algo diferente acontecendo. Aquele mesmo tipo de café, com plantinhas, mesas de madeira reciclada, o cardápio escrito com giz num quadro-negro e lâmpadas de filamento, é igual em Milão, em Berlim, no Rio... Eles são idênticos, apesar de venderem justamente a ideia de serem especiais, únicos.
Fonte:https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2025/06/08/em-as-perfeicoes-autor-italiano-retrata-a-obsessao-dos-millennials-por-autenticidade-e-o-vazio-existencial-na-era-digital.ghtml
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